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Depois da liberdade e da responsabilidade, trago hoje, desse rio sem regresso, outro valor humano fundamental: a bondade. Escolhi este termo com muito cuidado porque vai mais longe do que a generosidade, o respeito pelo próximo. Também se baseia na empatia, mas de uma forma mais profunda do que o simples convívio amável. A verdadeira bondade é própria de muito poucos, implica uma consciência abrangente e a maturidade para perceber o seu papel no mundo e assumi-lo de forma responsável. E implica ainda uma cultura da igualdade, que actualmente vemos confinada à cultura cristã: somos todos irmãos e iguais. Só alguém que interiorizou esta cultura pode realmente olhar o outro como outro igual a si, no mesmo plano, na sua identidade humana comum. 

 

O filme que escolhi para este valor humano fundamental da bondade é um dos mais vistos na época natalícia: It's a Wonderful Life, traduzido por Do Céu Caiu uma Estrela. O título original é o que dá o mote à ideia que quis fixar hoje, porque se o anjo o veio ajudar, em resposta à sua prece, foi pela bondade desse homem aflito. E vou mais longe: sem a consciência abrangente da maturidade, sem a responsabilidade pelo seu papel na comunidade, e sem a bondade como base dessa compreensão do grande plano, esse homem não tinha sequer ouvido o anjo e a sua mensagem.

 

As cenas mais conhecidas do filme envolvem sobretudo os sonhos deste homem, George Bailey, enquanto jovem: quer construir coisas e quer viajar. O curso e as viagens serão adiados para apoiar outros, e irá acabar por ter de assegurar a continuidade do negócio do pai: um banco local de pequenos empréstimos. É aqui, neste pormenor, que este texto se começa a aproximar do tema, mas já lá iremos.

É este o papel estruturante de George Bailey na sua comunidade: a possibilidade de melhorar a vida de muitos dos seus habitantes, casas arejadas e confortáveis a baixo custo, uma vida digna. É aliás o que defende numa reunião com os administradores perante o homem mais rico e poderoso da cidade. Potter despreza as legítimas aspirações dos comuns mortais, que considera como não merecidas, acima das suas possibilidades. Onde já ouvimos isto?

Reparem como George Bailey procura que a sua visão seja compreendida e considerada por um Potter incapaz de empatia ou respeito pelo próximo. Potter apenas revela desprezo por essas pretensões porque não cabem na sua lógica lucrativa. Nem mesmo quando George Bailey, apelando à sua perspectiva lucrativa, lhe tenta demonstrar que pessoas com condições de vida mais dignas são melhores cidadãos e melhores clientes.

 

 

Começamos a ver aqui duas culturas inconciliáveis: o mundo dos George Baileys e o mundo dos Potter. E começamos a ver para que mundo nos estão a conduzir actualmente, na Europa e no país. Os discursos de um e de outro revelam-se perturbantemente actuais.

A cultura que prevaleceu na Europa e no país é claramente a do Potter: os mercados, os bancos, a dívida, a finança, em primeiro lugar. As vidas concretas das pessoas, as suas condições de vida, o trabalho, a economia, em último lugar.

 

A cultura que prevaleceu na Europa e no país é a decisão centralizada do cenário que estão a preparar para os países e, nesses países, para os cidadãos, sem considerar as aspirações legítimas dos cidadãos europeus e nacionais.

Um grupo de iluminados decide, sem considerar os cidadãos. Depois de os aliciarem a consumir durante anos, privam-nos não apenas do supérfluo, mas do essencial. Afinal viviam acima das suas possibilidades. Agora têm de reduzir drasticamente o seu nível de vida e as suas aspirações.

Começa-se pelos impostos. Empresas a fechar. O desemprego a disparar. Os cortes, por cima dos impostos e das taxas adicionais, baixam automaticamente os salários e o nível de vida. A emigração passa a ser uma forma de reduzir as estatísticas do desemprego e os custos da Segurança Social. País refundado, estão a ver?

 

Podem pensar que os George Baileys deste mundo estão desactualizados mas, contrariamente à sua perspectiva e ao cenário que nos estão a preparar na Europa e nos países do euro, o cenário que vale a pena construir é o que inclui os cidadãos e nem podia ser de outro modo. Só com os cidadãos se pode encarar uma economia saudável e a criação de riqueza. Só com uma cultura em que todos são respeitados como cidadãos se pode falar de democracia. E a democracia implica a participação de todos, cada um no seu papel e na sua responsabilidade. É essa cultura democrática que ainda precisamos de criar por cá.

Um primeiro fôlego dessa compreensão da cidadania foi o 15 de Setembro. Foi um primeiro fôlego. Nesse grande encontro e caminhada pelas ruas de Lisboa verificou-se pela primeira vez, talvez de forma mais genuína e autêntica do que o proprio 1º de Maio de 74 (com que foi comparado e em que tudo estava politicamente polarizado), a consciência da responsabilidade da cidadania.

 

George Bailey é essa consciência mas de forma mais abrangente. Ele adia os seus sonhos pelas aspirações legítimas dos habitantes da sua comunidade. Ele é um deles. E a comunidade está com ele, confia nele. 

No filme, Frank Capra, o realizador mais idealista que conheço, dá um jeito à história: é o mundo de George Bailey que prevalece no final, é a cultura da bondade, da coesão da comunidade, da dignidade humana, do cenário em que os cidadãos têm direito a um futuro, que prevalece no final. Mas também nos revela que foi precisa a intervenção divina, logo, não é tarefa fácil e depende de todos em conjunto, cada um no seu papel e com a sua responsabilidade.

 

No rio sem regresso encontram o filme completo, se o quiserem rever. Apontei uma janelinha (01:03:45 a 01:07:33) que inclui as minhas cenas preferidas e que se relacionam com a concretização do Bailey Park, porque são sempre essas as cenas que recordo em primeiro lugar quando penso no filme.

A continuação de uma época natalícia em que a bondade surja de vez em quando, é o que desejo a todos os Viajantes que por aqui vão passando.

 

 

publicado às 11:15

De um rio sem regresso, tal como prometi que iria fazer nesta época de reflexão, coloquei aqui a navegar o primeiro filme de um dos valores humanos fundamentais: a liberdade. A liberdade, como vimos, é um dos valores mais difíceis de conquistar e manter, depende da organização em que se vive mas também depende da consciência e maturidade de cada um, na sua própria escala e dimensão.

A liberdade está ligada à responsabilidade, não se podem considerar separadamente, uma depende da outra, e a forma de exercer uma tem de incluir a outra. É por isso que o filme que hoje trago desse rio traz um outro valor humano fundamental, a responsabilidade, com a mensagem essencial: quanto maior o poder de decisão e de influência das lideranças, maior a sua responsabilidade.

 

Neste filme, Executive Suite, o debate que se estabelece no gabinete entre dois modos de liderança, adapta-se perfeitamente aos tempos que temos vivido na Europa e no país. Uma das lideranças coloca como prioridade o lucro dos accionistas e a outra defende uma nova perspectiva: manter o prestígio da organização que depende da confiança dos clientes, e é dessa confiança que, por sua vez, depende a sua continuidade, o seu futuro. Se adaptarmos esta perspectiva à Europa e ao país, o que fica? Que o poder e o prestígio das instituições depende da confiança dos cidadãos. E tratando-se de instituições-chave na estrutura e organização colectiva, não é apenas o seu poder e prestígio, mas também a sua legitimidade.

 

 

 

 

Outra mensagem que o filme nos traz é que uma liderança capaz de manter viva uma organização, garantindo não apenas o lucro dos investidores, mas o prestígio da organização e a confiança dos seus clientes, implica mobilizar todos os elementos nesse propósito. Isso é dito claramente no filme: não é uma tarefa de um homem só, é uma tarefa de todos, cada um no seu papel. É um trabalho colectivo e organizado.

 

Esta cultura da responsabilidade teria sido providencial na Europa e no país. Lideranças que percebem que o prestígio e a legitimidade das organizações e instituições-chave que representam é a sua prioridade, baseiam a sua actuação e poder de decisão, não apenas em corresponder às exigências da parte mais influente, investidores e credores, mas em tentar conciliar as várias partes do grande plano.

 

Como vimos, as lideranças tinham um enorme desafio pela frente mas não estiveram à altura das suas responsabilidades:

 

- na Europa, nem o Prémio Nobel da Paz serviu para minimizar os danos do seu falhanço. A paz foi precisamente o que a CE quis introduzir na percepção dos cidadãos europeus numa tentativa tardia e desesperada que acabou por se revelar contraproducente. Não tendo respeitado as regras definidas, os acordos e tratados, passando por cima do equilíbrio de forças entre países, e atropelando direitos humanos fundamentais dos cidadãos dos países em apuros, privilegiando a parte mais poderosa e influente, a dos investidores e credores, comprometeram o prestígio e a legitimidades das instituições-chave que representam. Ao não darem sequer, aos países em apuros, a possibilidade de preparar estratégias adequadas e exequíveis de respeitar os compromissos assumidos, ou seja, pagar a dívida, comprometeram o prestígio e a legitimidades das instituições-chave que representam. Mas acima de tudo, estas lideranças comprometeram a continuidade dessas instituições-chave, a coesão europeia, a paz e o futuro. 

Numa cultura de responsabilidade teríamos hoje uma CE com prestígio e legitimidade, e cidadãos europeus mobilizados num propósito comum e confiantes no futuro.

 

- também no país, o desequilíbrio das decisões que privilegiaram a parte mais poderosa, numa lógica puramente financeira, foi percebido pelos cidadãos, e esta percepção comprometeu seriamente a confiança nas instituições-chave. Nada mais preocupante do que a percepção dos cidadãos do desequilíbrio entre uns poucos que pertencem a um grupo protegido, as excepções, e os cidadãos no seu conjunto, os comuns. E são instituições-chave que garantem o equilíbrio social e mantém a ordem e a estabilidade. 

Numa cultura de responsabilidade, ter-se-ia procurado o equilíbrio das partes envolvidas e garantir a confiança e mobilização dos cidadãos num mesmo propósito.

 

Uma comunidade ou sociedade democrática, isto é, organizada de forma equilibrada e saudável, baseia-se em regras bem definidas, que todos devem conhecer e cumprir, isto é, leis imparciais cuja eficácia é garantida pela Justiça. Quando se perde a confiança no cumprimento das decisões desta instituição-chave que é a base do equilíbrio das interacções entre grupos e cidadãos, tudo se deteriora e desaba, debilitando-se a democracia. 

 

publicado às 14:34

Nesta esplanada Vozes_Dissonantes nunca sei exactamente que Viajantes por aqui passam, quem são, de onde vêm. As mensagens que aqui lhes deixo são como mensagens que colocamos numa garrafinha de vidro e lançamos no mar, hão-de chegar a bom porto.

Há sempre um destinatário para as nossas mensagens. Fica sempre registada uma ideia, uma informação, um desafio. Nada se perde nesta interacção humana, de vidas concretas, tudo fica registado no grande plano. E um dia a resposta virá, directa ou indirecta, numa notícia qualquer, numa movimentação, num acontecimento. Há quem lhe chame o efeito boomerang. Já vi isso acontecer.

E verei em breve isso acontecer na Europa e também cá dentro, neste país onde já não há lei nem ordem, onde se espezinham direitos humanos fundamentais, democráticos e constitucionais: liberdade, equidade, verdade, lealdade, responsabilidade, respeito pelo próximo.

 

Mas pode alguém espezinhar os direitos fundamentais de outrém, os seus direitos democráticos e constitucionais, trair a sua confiança deliberadamente, e ficar tudo na mesma? A minha reflexão baseia-se na história da humanidade, e essa lição dos mesmos erros repetidos até à exaustão leva-me a concluir que quem prejudica o próximo, e o faz deliberadamente, terá a resposta adequada mais cedo ou mais tarde.

É que a vida é este movimento constante, tudo está interligado, as vidas cruzam-se num tempo-espaço, estabelecem-se laços, acordos, promessas, compromissos. Na altura da traição tudo isso fica por cumprir, mas não há tempo-limite que esgote a traição da confiança.

 

O que pode hoje um cidadão portucalense fazer para defender a sua vida, o seu trabalho, o esforço e investimento de uma vida? Essa é a questão essencial. A quem pode este cidadão recorrer? Quem lhe pode valer? Quem está sequer interessado em defender os seus direitos fundamentais, democráticos e constitucionais? Este é o desafio que hoje deixo aos Viajantes que aqui passarem.

 

E como estamos perto do Natal, época propícia a reflexões sobre a fraternidade e o amor ao próximo, que são a base dos valores humanos civilizacionais, aqui fica um rio onde toda esta aventura blogosférica começou, e um filme que diz tudo sobre os heróis que defendem esses valores.

Podem dizer-me: mas isso é uma utopia, alguém poder e querer defender a liberdade e a verdade, e um projecto maior do que si próprio. Mas é nos modelos e nos desafios como este que inspiramos as nossas vidas, que fomos educados na infância, que nos orientámos até hoje.

 

Este rio sem regresso vai dedicar os próximos posts do Natal à Passagem de Ano, aos valores humanos fundamentais, com filmes e personagens, os modelos que nos inspiram. Deixarei aqui, nesta esplanada, os filmes, um a um, começando por este magnífico, e sempre actual, Mr. Smith Goes to Washington:

 

 

 

 

 

publicado às 16:24

"The crisis in the eurozone" (Costas Lapavitsas)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.12.12

Nada mais cínico do que o discurso Não somos gregos. Já o ouço há tempo demais. Claro que somos gregos. E claro que nos sentimos gregos. E não somos só nós. Os espanhóis também se estão a sentir gregos. Mas nada como ouvir, na própria voz dos gregos, a sua perspectiva da Eurozona.

Costas Lapavitsas é economista, autor de "The crisis in the eurozone", considera que estes programas de austeridade irão implicar uma enorme recessão e o fim da união monetária europeia. Nesta conjuntura com perspectivas tão dramáticas, considera que a Grécia deve sair do euro e antes agora do que numa situação pior, uma vez que a situação só vai piorar.

 

Do link destaco: Ultimately, he feels the people of Europe must gain democratic control over their financial institutions, and ensure they are restructured in the best interests of the people, not the banks.

...
Blaming Greece for the eurozone crisis has been a regular feature of public debate, often taking virulent forms – ie Greek people are dishonest and lazy, Greek politicians are corrupt, the country is backward and so on. There is no doubt that Greek society has deep problems, but as explanations of the crisis these arguments are puerile. Astonishingly, Greek officials have mouthed some of these stereotypes while negotiating with the EU.

Qualquer semelhança com a nossa realidade actual é pura coincidência. Mas continuemos...

 

The Greek path to ruin was determined by eurozone membership, similarly to other peripheral countries – Portugal, Ireland and Spain. The periphery adopted the euro hoping that it would lead to convergence with the more developed core. But the monetary union has structural flaws. Within its rigid framework, and faced with frozen German wages, peripheral countries lost competitiveness. Huge external deficits resulted, which were financed by borrowing from the banks of the core. Peripheral banks also took advantage of easy credit to expand domestic lending.  By 2009 the peripheral economies were laden with vast debts – domestic and foreign, private and public – making them effectively insolvent. Core countries, reasonably enough, were reluctant to carry the costs of peripheral insolvency. This is the root cause of the eurozone crisis, and Greece is simply the most acute case of peripheral failure.

 

Agora a análise dos problemas gregos que o autor não nega. Reparem nas tristes coincidências:

Far be it from me to deny the defects of Greek state, economy and society: widespread tax evasion; a tax system that favours big business and the rich; corruption in public procurement, including in medicine and armaments; malfunctioning labour markets with exploitation in the private sector and clientelism in the public sector; favouritism for big business closely linked to the state; inefficient small and medium enterprises that often avoid taxes; inequality and weak welfare provision.

Mas: 

But let us be clear that the current predicament of Greece is not the result of structural weaknesses that have been with us for a long time. The country is on the brink of ruin because it chose to join a flawed monetary union. The euro has brought Greek defects into sharp relief, as it has done for other countries.

...

This is truly a European crisis and, if the Greek disaster was resolved in the interests of working people, the rest of Europe would also benefit. There is no doubt that Greece needs root-and-branch change, but the necessary reform is unlikely to be delivered by the dominant social layers. They are precisely the people who do not pay taxes, have the closest connections with the state, possess extensive networks of patronage and are desperate to remain in the monetary union. Genuine reform in Greece must be led by the working people who pay their taxes meticulously and suffer from corruption and patronage. Greece's notorious aversion to paying taxes will be cured only if there is profound social and political change.

  

... there have been plenty of voices in the Anglo-Saxon world stating that the monetary union was built on sand. More than that, the policies of the "troika" (the EU, the IMF and the ECB) have made things worse. They include, first, austerity to reduce state exposure to debt and, second, structural adjustment to improve competitiveness. Both are failing and have exacerbated the crisis across Europe. 

Austerity has led to lower public expenditure and higher taxes, thus reducing demand. Businesses have therefore faced difficulties, particularly as banks have also reduced the supply of credit. The result has been rising unemployment, falling consumption, and declining investment.

Novamente, quaisquer semelhanças são muito mais do que puras coincidências.

 

Structural adjustment has crushed labour costs, while further liberalising markets and privatising public assets. Presumably private capital will take advantage of the new conditions, bringing dynamism to the economy. But cutting wages is unlikely to benefit peripheral competitiveness significantly, as long as Germany follows a policy of keeping wages low. Liberalisation and privatisation, on the other hand, will take years to have any effect, and even then it is debatable that they would meaningfully raise productivity. Meanwhile, the onslaught on the public sector has actually weakened the capacity of the state to collect taxes. Tax receipts during the past two months in Greece have been appalling. The country is a step away from being unable to pay wages and pensions in the public sector.

 

Uma questão fundamental, a Alemanha:

German banks and German exporters have benefited substantially from the euro, even though the performance of the domestic economy has been undistinguished. They are keen to preserve the basic structures of the monetary union, indeed wish to impose harsher fiscal discipline and more labour flexibility. These policies are perceived as protecting the geopolitical interests of Germany, and hence the German government can argue in all seriousness that there is nothing structurally wrong with the monetary union. The problem is, apparently, to impose fiscal discipline and economic efficiency on the errant periphery.

 

Possíveis soluções da crise da eurozona que, cá para nós, nunca será implementada, e percebe-se porquê:

The crisis has been allowed to fester for more than two years. To resolve it now would take a vast transformation of the monetary union. A Marshall plan would have to be adopted to raise productivity in the periphery. German economic policy would have to change, lifting wage restraint, boosting domestic demand and rebalancing the economy away from exports. The debts of the periphery would have to be restructured, or there would have to be sustained inflation to reduce the debt. The banking sector of Europe would have to be overseen by a transnational authority with the tax resources and power to shut banks down. A system of fiscal transfers would have to be created to allow for rebalancing trade deficits and surpluses within the union. It is hard to see how these changes could take place given the political structures of the EU. It is even harder to see them happening in time for peripheral countries.

 

Mas valerá a pena salvá-la?

The eurozone is a flawed structure that has brought together countries differing greatly in competitiveness, welfare policy, labour market practices, banking performance and even economic culture and customs. There is no overarching state and, more significantly, no common European polity to support the common currency. A sharp division has emerged between core and periphery, which has become sharper as a result of the policies of the past two years. Germany is unwilling to make major sacrifices to rescue the monetary union: unsurprising given the wage restraint German workers have faced for years. The sums are likely to be huge, anyway, even for the German economy.

It is likely that the eurozone will begin to unravel, although it is impossible to anticipate the form that the unravelling might take. There could be a complete dissolution, or the creation of a "hard" euro surrounded by variants of national currencies. There could also be individual exits by countries in the first instance. Whatever its form, the unravelling of the monetary union would have enormous costs. It is absolutely vital to have a Europe-wide public debate on how to manage the process.

 

Estão a ver os gestores políticos e financeiros a resolver a questão? A encará-la sequer? Delegar o poder que conseguiram adquirir com a oportunidade única da crise? Também não.

Como diz o autor, só os cidadãos considerarão este debate. 

 

 

publicado às 14:54

A agenda tecnocrata: como ajustar um país e os seus cidadãos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.12.12

Nesta fase da nossa vida colectiva já não temos quaisquer dúvidas que os gestores políticos seguem uma agenda financeira. A economia está completamente condicionada pela finança, neste momento já sufocada, porque é essa a forma, o meio de ajustar os países e os seus cidadãos. Se o seu interesse fosse garantir o pagamento da dívida teriam considerado as condições que o permitissem: reanimar a economia, criar a confiança, mobilizar os cidadãos. Mas não é esse o objectivo, a sua ambição vai mais longe: reduzir o valor trabalho e manter dependências, garantindo assim o poder de definir a formatar o nível de vida dos cidadãos. Cidadãos com medo do futuro são mais obedientes e aceitarão trabalhar sem estabilidade, compromisso, qualidade, perspectivas futuras.

Reparem que as áreas mais afectadas pelos cortes são precisamente as mais sensíveis socialmente: o trabalho, a saúde e a educação. As áreas que garantem as condições de autonomia.

 

O que aconteceu com os gregos vai acontecer connosco, essa converseta do bom aluno não pega para a linguagem do poder. O poder quer obedientes mas despreza-os e mais facilmente os pisa (ler Arno Gruen). Tal como estão a fazer connosco.

Um tecnocrata que se preze segue a linguagem do poder, obedece acriticamente a quem lhe garante um lugar ao sol, vende a alma ao diabo se for preciso. No seu manual de instruções está a obediência à finança em primeiro lugar e às instituições políticas europeias e organizações internacionais em segundo.

 

As eleições nacionais apenas mudarão os protagonistas. A agenda será seguida. Talvez esta pressa de ajustar tudo e todos já no próximo ano se deva a essa possibilidade: caindo o governo e vai cair em breve, o ajustamento já está garantido. Os socialistas apenas terão de fingir um apoio ou outro, um alívio ou outro, mas os danos já estão feitos. Tal como agora estão a fazer aos gregos.

Os espanhóis virão a seguir.

Os italianos e os franceses talvez se consigam livrar de um ajustamento tão dramático porque a sua economia se mantém forte, têm indústria e agricultura.

 

No entanto, já se nota um desconforto europeu, e ao nível das organizações internacionais, porque a sua agenda foi exposta, está à vista de qualquer um medianamente observador e atento. Já se ouvem vozes a pedir moderação antes que isto dê para o torto. Para o torto entenda-se qualquer coisa que prejudique a sua agenda lucrativa, qualquer coisa que comprometa a eurozona.

Ouviremos nos próximos tempos falar de economia e de promoção de emprego, mas será apenas para acalmar os ânimos mais exaltados, as vozes do desespero.

 

A minha perplexidade é esta: como é que os tecnocratas europeus e de organizações internacionais consideraram sequer possível destruir a confiança e o ânimo dos cidadãos europeus, destruindo a sua autonomia relativa, a sua qualidade de vida, o equilíbrio e coesão sociais, e manter o poder? A Europa já surge toda retalhada, com diversas fracturas insanáveis. Não se põem países ajustados à fome e depois disso querer manter uma coesão europeia. Numa lógica democrática esta agenda é impossível. Portanto, a agenda inclui a utilização de outras formas de exercer o poder. Que também veremos surgir em breve com o argumento securitário.

 

 

 

publicado às 14:29


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